12 de ago de 2010

Olhares/02

Quando nos conhecemos, ele tinha o olhar cansado, triste. Olhar de quem parecia que ia se matar a qualquer momento.
Eu puxei assunto com ele e ele me deu um de seus trabalhos. Esse homem, artista gaúcho, se chama Jones.
Durante o tempo em que morei na Glória, eu sempre o via. O mesmo olhar. Eu pensava em lhe dar um oi, mas sempre deixava pra lá.
E hoje, eu o vi. E ele me olhou. Ele me olhou, eu disse "oi" e ele me respondeu. Alguns minutos depois, passei pelo mesmo local e lá estava ele, parado com um de seus pássaros feitos de cartolina e arame. Um pássaro gracioso que eu comprei para um amigo.
- Jones, eu me lembro que um dia você me disse que é gaúcho...
- Eu sou de Porto Alegre. Você também é?
- Não... Você não tem vontade de voltar para lá?
- Só a passeio, mas não tenho dinheiro.
- Por que você não se cadastra para viajar de graça pela Base Aérea? Você desce em Canoas...
- É, vou ver isso.
O mesmo olhar triste, a mesma expressão de cansaço. Quando parti, ele me disse: "Tchau, amiga. Vai com Deus". E me beijou a mão. E eu pensei na solidão daquele homem, como eu, um forasteiro no Rio de Janeiro, e por um momento, a solidão dele se confundiu com a minha, que tem outro formato, mas não deixa de existir.

Olhares

Tem olhares que eu capturei com meus próprios olhos. Às vezes, me dá uma angústia porque não pude gravá-los com uma lente.
São sempre olhares marcantes.
Um desses olhares foi o do ser andrógino que me encarou numa noite carioca de 2008. Desci do ônibus na Praça Paris, na Glória, sem imaginar que um dia esse bairro me serviria de morada. Na época, fui olhar uma vaga e, no caminho, eu o vi. Estava parado à meia luz e usava um sobretudo. Quanto mais eu me aproximava, mais pensava que ele iria se virar e abriria o sobretudo para que eu olhasse seu corpo nu. Mas o que ele fez me surpreendeu mais ainda: ele me encarou. Eu não saberei nunca traduzir bem aquele olhar azul. Era uma mistura de indagação com surpresa e também com audácia... Olhar que eu nunca mais vi na vida, nem naqueles olhos azuis e nem em outros olhos.
Não capturei esse olhar com uma câmera, mas ele está gravado na minha memória e toda vez que passo pela Praça Paris, eu me lembro dele e me surpreendo igual.